«A Asia Bibi representa, no fundo, para determinados grupos, que infelizmente (1.) são os dominantes no Paquistão, representa aquilo que (2.) os muçulmanos em determinados contextos pretendem rejeitar, que se chama o Ocidente, que está colocado ao Cristianismo, Não estou com isto a dizer que estou a defender a situação que se está a passar neste momento de todo. O que eu estou a querer dizer é que nós temos que olhar para as coisas e (3.) eu como cientista social tenho este compromisso intelectual comigo mesma, de fazer a análise do ponto de vista sociológico e psico-sociológico, portanto as coisas têm que se analisadas do ponto de vista objectivo; o que é que pode estar por detrás desta história. E nós temos que mexer alguma coisa, - nós, eu digo nós todos - (4.) nós que nos preocupamos com os direitos humanos, deste lado do mundo, e aqueles que ainda não tiveram o tempo de poder pensar em direitos humanos porque entretanto foram sucessivamente utilizados como instrumento para manipular outros interesses político-económicos no mundo», referiu Faranaze Kei Shav Ji.»,
E aqui vão os meus comentários:
- Ao contrário do que Faranaz Keshavjee afirma en passant, os "grupos muçulmanos" que "pretendem rejeitar o Ocidente, que está colado ao Cristianismo" não são "dominantes" no Paquistão. São (pelo menos ainda) uma minoria com bastante influência mediática e política, mas não deixam de ser uma minoria radical que em nada representa a maiora dos paquistaneses e a sua atitude perante "o Ocidente" e "o Cristianismo" - conceitos que, no seu quotidiano (educação, cultura popular, profissão etc.), sabem distinguir muito bem.
- "Os muçulmanos em determinados contextos" - o que é que isto significa? O que é que isto nos diz? Nada. Os hipsters de Portland, "em determinados contextos", também rejeitam o Ocidente que está colado ao Cristianismo.
- You can't have it all. Ou um ponto de vista sociológico, interpretativo, crítico e engagé no sentido de querer denunciar e mudar a realidade (tal como refere querer fazer na frase seguinte). Ou uma análise fria eobjectiva. Podemos falar de um "ponto de vista objectivo" quando temos um "compromisso intelectual" com a "análise psico-sociológica"? Tanto palavrão para a audiência da TSF!
- Em que "lado do mundo" vive Faranaz Keshavjee? Quem somos "nós" que "nos preocupamos com os direitos humanos"? Quem são "aqueles" (subentende-se "do outro lado") que ainda "não tiveram o tempo" de pensar nestas "coisas"? Há muito boa gente que, todos os dias, nas mais precárias condições, luta pelos direitos humanos no Paquistão. Tal como há muita má gente que, todos os dias, nas melhores condições, ignora e viola impunemente os direitos humanos em Portugal.
Eu percebo que não é fácil descrever em poucos segundos uma situação e questões tão complexas como esta. O jornalista liga e temos poucos segundos - já estive nessa situação e fiz muitos erros.
Mas também é essa a tarefa de um/a "cientista social" - é saber transmitir, de forma informada, concisa e clara, os contornos básicos da questão em debate, oferecer uma ou várias perspectivas, e dar pelo menos algum espaço ao leitor/ouvinte para formar a sua própria perspectiva.
Mas também é essa a tarefa de um/a "cientista social" - é saber transmitir, de forma informada, concisa e clara, os contornos básicos da questão em debate, oferecer uma ou várias perspectivas, e dar pelo menos algum espaço ao leitor/ouvinte para formar a sua própria perspectiva.
O mais ridículo nisto tudo é mesmo a TSF, que se refere à investigadora (bastante conhecida e colunista em vários jornais) como "Faranaze Kei Shav Ji", quando o seu nome correcto é "Faranaz Keshavjee". Um Google search teria bastado. Mas nem isso...
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